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Em
julho de 1999, tive a oportunidade de estar presente em um concerto do
Acappella em Hopkinsville, TN. Após o concerto, enquanto Kevin, Ken e
Barry estavam atendendo o público, conversando e posando para fotos, entrevistei
Gary Moyers, que na época cantava no Acappella como barítono. Atualmente
ele é o presidente da Acappella Company. Ele é alguém muito acessível,
preocupado com a família, envolvido com a igreja e atencioso com as pessoas.
GMCD: O Acappella esteve recentemente na China. Como surgiu o convite
para se apresentarem lá?
Mo: Através do International Festival of Arts (Festival Internacional
de Artes). Ele já acontece há alguns anos, e foi iniciado por um grupo
do Canadá. Eles organizam este evento em diferentes lugares; já houve
na Rússia e na Bulgária. Este, o terceiro, foi na China. Um dos membros
da IFA é o presidente da Word Records, que nos indicou, e aceitamos na
hora. Foi maravilhoso! Havia mais de vinte grupos se apresentando.
GMCD:
Todos os grupos eram cristãos?
Mo: Todo o pessoal da IFA é cristão. Mas a China é uma nação comunista,
e o festival em si não era denominado cristão, apesar de todos os artistas
serem cristãos. E nós cantamos o que sempre cantamos: sobre Jesus. E cantamos
tudo o que queríamos. Tivemos a oportunidade de anunciar o evangelho na
China! Foi maravilhoso!
GMCD:
Como ocorre a pregação do Evangelho por lá?
(Gary balança a cabeça, num sinal negativo.)
GMCD:
A Igreja lá ainda está sob perseguição?
Mo: Sim, é mais ou menos isso. Nós, até mesmo, estávamos um pouco
preocupados quando fomos cantar, pela mensagem de nossa música. Até que,
no segundo dia, em uma das apresentações, um dos representantes do governo
subiu ao palco e nos cumprimentou. Foi como se ele dissesse: "Vocês têm
a minha aprovação". Depois disso, não tivemos mais medo que fossem nos
tirar do palco.
GMCD:
O Acappella ficou muito conhecido no Brasil com a formação Gary Moyers,
George Pendergrass, Wayburn Dean e Duane Adams. Mas dessa formação, só
permanece você. Por que ocorrem mudanças no grupo? São devidas a necessidades
que surgem, como ocorreu com Steve Reischl e Gary Miller que saíram por
sentir necessidade de passar mais tempo com a família? Fale um pouco sobre
isto.
Mo: Bem, a razão de cantarmos é para ministrar às pessoas. Mas
se não podemos ministrar para nossa própria família, em primeiro lugar,
o que vamos ministrar de bom? É um conceito que não se pode ignorar! É
como o que Paulo falava, a respeito da qualificação de um líder da igreja:
ele deve ser marido de uma só esposa -- o que significa que deve ser fiel
a ela - e que seus filhos estejam nos caminhos do Senhor. E se ele não
pode fazer isto, não pode ser um líder. Por isso, a família vem em primeiro
lugar. E nossas famílias sempre viajam junto conosco.
GMCD:
Quando todos viajam juntos, como fica, por exemplo, o estudo das crianças?
Mo: Bem, atualmente só há duas crianças que viajam conosco, que
são os meus filhos: Ashley, minha filha de 5 anos, e Austin, um garoto
de 3 anos, e minha esposa os ensina. É algo que chamamos de Home School.
Eu não sei se isto existe no Brasil, mas em alguns estados americanos
é permitido à mãe educar os filhos em vez de mandá-los para a escola.
GMCD:
E chegam a ocorrer problemas entre vocês quando estão viajando juntos?
Mo: É claro que há problemas! Pode ter certeza que sim! Somos uma
grande família e, você sabe, toda família enfrenta problemas, pois há
muitas pessoas, de diferentes personalidades. Às vezes, por causa da nossa
agenda, tenho de colocar meus filhos no ônibus às 4 da manhã. Na viagem,
eles querem parar para comer no McDonald's. Mas quando não é você quem
marca seus compromissos, quando segue um roteiro determinado por outra
pessoa, você não é livre para fazer tudo o que gostaria de fazer. Você
tem de estar disposto a fazer sacrifícios. Eu imagino que, um dia, eu
venha a abandonar a estrada. Não penso nisso para logo, mas um dia. Meu
filho quer ser um jogador de futebol. Não é algo que se possa fazer dentro
de um ônibus. Minha filha quer ser uma ginasta. Ela gosta de barras paralelas.
Não dá para colocá-las dentro de um ônibus, você sabe.
GMCD:
Mas você se lembra que escreveu na lista de e-mail que não sairia do grupo
antes de 2038?
Mo: (risos) Você tem boa memória!
GMCD:
Alguns grupos hoje parecem estar mais preocupados com a venda de CDs ou
com o sucesso do que propriamente com a vida cristã, em apresentar um
bom testemunho. Fale um pouco sobre isso. Como é a vida devocional de
vocês?
Mo: Entre a família ou entre o grupo?
GMCD: Em ambos.
Mo: Bem, nós temos devocionais todos os dias. Oramos antes de cada
concerto. E é muito bom trabalhar e viver com cristãos o tempo todo. Nada
pode ser melhor! No passado, já trabalhei também com várias pessoas não-cristãs,
e é muito diferente quando as pessoas ao seu redor fazem coisas que não
agradam a Deus: a linguagem, as ações -- coisas que um cristão nunca faria.
É difícil. Mas aqui, em nossa família, todos dão o melhor de si para ser
como Cristo. Mesmo que haja problemas, como de fato existem, é mais fácil
para lidar com eles, porque todos tentam manter a mente de Cristo.
GMCD:
Eu ouvi falar que a música gospel vende hoje mais do que jazz e do que
new age. Muitos grupos surgem, e há uma preocupação com a motivação para
isso: se não estão tocando apenas pelo sucesso, pelo dinheiro... Como
você vê isso?
Mo: Bem, infelizmente, há muitos grupos por aí que podem se encaixar
nessa categoria. Eles não agem de acordo com aquilo que cantam. Você não
pode dizer se uma pessoa é cristã apenas pelo que ela canta ou fala. Eu
tenho de ter cuidado, pois esse assunto me incomoda muito. Há grupos que
eu não recomendaria a ninguém. Nós temos tentado e nos esforçado para
viver sempre aquilo que cantamos. Tentamos não falhar.
GMCD:
Na história do Acappella, há alguma música que, pela letra ou pela história
seja especial para você? Eu me lembro de que, na primeira vez que o Acappella
foi ensaiar a música I Am At Your Mercy, do CD Beyond a Doubt, vocês começaram
cantando e terminaram por louvar e adorar a Deus, ali, de mãos para o
alto.
Mo: De fato, essa música é linda, mas há outras que, para mim,
são ainda mais fortes. No álbum Classycal há a música Goin' Home. Ela
é a minha música, sem sombra de dúvida. Enquanto eu crescia, descobria
o quanto desejava, mais e mais, ir para o céu. Esta é a minha meta: ver
a Jesus. Toda a minha vida foi dedicada a servir a Jesus, mesmo sem nunca
tê-lo visto. E eu quero vê-lo! É disso que Goin' Home trata. Eu tenho
amigos aqui, tenho família, tenho uma casa. São coisas que tenho aqui.
Minha mãe já foi, há cinco anos, e meu pai foi há dez anos. Eles já foram,
e eu quero ir com eles também. Resumindo, Goin' Home é, disparada, minha
canção preferida.
(Sobre isso,
o Kevin Schaffer me disse por e-mail: "Uma das minhas músicas favoritas
é For The Lost. Eu amo sua simplicidade e sua mensagem. Ela tem um poderoso
efeito de impacto em qualquer oportunidade que temos de cantá-la. Certa
vez, nós a cantamos numa capela, num velho castelo na Suíça. Aquilo teve
um significado especial para mim, pois cantávamos sobre Cristo e víamos
aquelas velhas pinturas nas paredes, representando Cristo. As pinturas
eram velhas, com centenas de anos, mas a mensagem de Cristo é ainda fresca
e viva. Aquela foi uma grande experiência.)
GMCD:
Como as músicas são compostas e ensaiadas? A maioria é composta pelo Keith
Lancaster, certo? Certa vez, quando conversamos a respeito de partituras,
você disse que vocês não aprendem pela partitura. Inclusive, as partituras
que vocês vendem só foram impressas após a gravação dos CDs. Vocês nunca
usam partitura?
Mo: Não.
GMCD:
E como funciona, então?
Ele aponta para a cabeça, indicando que apenas decoram o que têm de fazer.
GMCD: Eu não acredito! É muito pra MINHA cabeça!
Mo: Essa partitura que você tem ao seu lado foi o Keith (Lancaster)
quem fez. É a primeira vez, em toda a história, que ele colocou a música
numa partitura para nos ensinar. Ela estará em nosso próximo álbum. O
que normalmente fazemos é nos sentar juntos, e ele nos diz: "Você canta
esta parte... Agora você canta isso... Agora, os dois juntos... Agora
você entra cantando isso... Não, não é assim! Parem os dois, e você canta
sozinho. Isso! Agora, cantem os três." E assim tudo vai se encaixando,
vamos aprendendo a música desta forma. Tudo fica aqui (apontando para
a cabeça).
GMCD:
Bem, obrigado, Gary! Você poderia dar um recado para o pessoal do Brasil?
Mo: - Olá, Brasil! Aqui é Gary Moyers, do Acappella. Eu já estive
no Brasil duas vezes, e amo o Brasil. Minha esposa tem parentes aí, no
Rio. Eu espero poder estar aí de volta em breve! Deus abençoe!
E o Reconhecimento?
Pela graça
de Deus, pude acompanhar de perto o Acappella, conhecendo um pouco da
vida de cada integrante fora do palco, e sei que o aprendizado foi valioso.
O Acappella não está correndo atrás da fama, tanto que não é tão reconhecido
em seu próprio país. Quanto a esta questão, Keith Lancaster disse certa
vez: "Não busco nenhum reconhecimento humano. O Acappella pode cantar
para milhares de pessoas, em um estádio, ou para algumas dezenas, em um
igreja, mas se ao menos uma alma for tocada, terá cumprido seu objetivo."
E Mo me disse que o Acappella hoje não está tão preocupado com muita produção
e muitos efeitos -- agora são apenas quatro vozes, soltas, tranqüilas,
cantando para Deus.
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