A Revista Gospel Music CD nº 11 apresentou uma matéria sobre o Acappella, e também uma entrevista com Gary Moyers. Leia aqui a matéria na íntegra.

Quatro vozes em harmonia. Quatro vidas consagradas ao Senhor. Um ministério único: levar o Evangelho aos povos por meio da música cantada a cappella.


Sabemos que as regras jornalísticas dizem que um repórter não deve ter nenhum envolvimento pessoal com o assunto de que vai tratar. Mas, neste caso, decidimos ferir essa regra. Newton Kern, nosso repórter gaúcho, além de grande admirador do grupo, é amigo dos componentes, como fica evidenciado nesta matéria.


Lixo na Rua e Concerto Exclusivo

A primeira vez que ouvi o Acappella foi em 1991, com a fita Sweet Fellowship. A partir dali, procurei comprar algo do quarteto sempre que possível. Na primeira vez que fui aos Estados Unidos, não pude deixar de viajar à cidade de Paris, TN, para poder, finalmente, assistir a um concerto do Acappella. Eu só havia tido contato com o Gary Moyers, vocalista do grupo e presidente da The Acappella Company, por e-mail. Desembarquei do avião em Nashville, e na manhã seguinte aluguei um carro e parti rumo a Paris. Ao me aproximar do local, eu ficava imaginando: "Como será a sede deles?" Pensava num prédio com certo luxo, onde teria de me identificar à recepcionista e explicar que, apesar de não ter hora marcada, eu queria conhecer os cantores. Chegando lá, estacionei ao lado da casa (a sede fica na casa onde moravam os pais do Keith Lancaster, fundador do Acappella), e encontrei o Kevin Schaffer indo colocar o lixo na rua. Ele me apresentou ao Ken McAlpin, baixo do grupo, e este me levou numa tour pelos estúdios. Depois, conheci o Gary Moyers, barítono, com quem me comunicava via e-mail. Por último, conheci Barry Wilson, que canta a melodia. Eles iriam ensaiar, e me convidaram para assistir. Aquele ensaio foi meu primeiro concerto, e exclusivo!

No ensaio, eles cantaram La Song, Shut De Do, Now To Him, House of Praise, Sweet Fellowship, Rescue, Old Time Gospel, Rock-A-My Soul, Hush, e outras tantas que me deixaram "de queixo caído". No começo do ensaio, eles oraram. Aquela seria a primeira apresentação de Barry Wilson e ele teria de solar muitas músicas, inclusive algumas que não conhecia antes de entrar para o grupo. Num determinado momento, Barry perguntou: "O que vamos ensaiar agora?", e Mo respondeu: "Você é quem manda, eu já sei as minhas partes". Durante o ensaio, eles começaram a questionar Ken a respeito de determinada passagem bíblica (minha memória falha de novo!). Ken tem algo como um bacharelado em Novo Testamento e algo como um mestrado em Antigo Testamento. Eles o chamam de algo parecido com Referência Bíblica Ambulante do Acappella. Ken brincou com Kevin, pedindo que ele tentasse alcançar uma nota grave. Foi terrível! Kevin tem um timbre de voz agudo, e ótimo alcance para cima. Mas para baixo...

Depois do ensaio, conheci as famílias de alguns deles, e outras pessoas da Companhia, como Robert Orr (técnico de som), Chris e Jeremy, do AVB (All Vocal Band, um quinteto da Companhia Acappella que se apresentou este ano em Belo Horizonte), e Sharon Lancaster, esposa do Keith Lancaster, fundador e ex-cantor do Acappella. A hospitalidade foi incrível! Acabei jantando na casa da família Lancaster. No outro dia, conheci Larry Sparks (que cuida, entre outras coisas, da parte comercial do Acappella) e sua esposa, Linda, e almoçamos juntos.

No dia do concerto do Acappella, cheguei à tarde, enquanto eles estavam ensaiando. Ia sair para comer algo antes do show, mas eles me convidaram para jantar com eles. Na hora do concerto, consegui me sentar na oitava fila, mas no decorrer da apresentação fui presenteado com um lugar na primeira fila, no primeiro banco, ao lado do pessoal do AVB. Durante o concerto, Kevin Schaffer explicou ao público que o grupo estava começando uma tour, e que havia ido a vários lugares, inclusive ao Brasil, e, então, disse que havia um brasileiro presente ali, naquela noite, e me apresentou ao público.

Este foi o primeiro concerto em que Barry Wilson cantou como membro do Acappella. No começo do concerto, ele me pareceu um pouco tenso em algumas músicas. Enquanto cantavam Walking That Line, Mo saiu de seu lugar e abraçou Barry, cantando ao seu lado. Aquele ato parece ter dado uma confiança maior ao Barry. Quando cantou Old Time Gospel, Barry soltou a voz e esqueceu do nervosismo. Parecia haver um cuidado maior com Barry e Ken, por serem novos no grupo. Ken já havia cantado com o Acappella em alguns concertos na Europa, substituindo Gary Miller, baixo do Acappella (Ken chegou a cantar como segundo tenor, após a saída de Steve Reischl). Essa substituição foi apenas temporária, a princípio; mas depois ele acabou por assinar o contrato de profissional, estreando em 98 como baixo. Após o concerto, eles só voltaram aos camarins para orar e depois saíram pelos corredores, posando para fotos, cumprimentando e conversando com as pessoas. Até cantaram Happy Birthday to You (Parabéns a Você) para uma senhora que fazia aniversário naquele dia. Um concerto inesquecível, para ela e para mim!


Não Apertaram Minha Mão!

Em torno das seis horas do dia 23 de julho de 99, eu estava filmando a frente da igreja onde o Acappella iria se apresentar, em Hopkinsville, KY. De repente, ouvi uma voz: "Ei, aquele é o Newton?" Eram Barry Wilson e Kevin Schaffer que estavam indo se arrumar para o concerto. Desliguei a câmera e estendi a mão para cumprimentar Barry, que vinha na frente, mas ele passou direto por minha mão... e me deu um forte abraço. Essa postura amiga me faz admirar ainda mais o quarteto, que já muito me inspirou pelas letras das canções, e até hoje me deixa de queixo caído pela harmonia das quatro vozes, sem qualquer acompanhamento de instrumentos.

A apresentação durou cerca de uma hora e meia. Era um encontro de jovens, em uma igreja do interior do Kentucky. A igreja estava lotada, e o grupo cativou a todos com a apresentação, que foi bem diversificada. Houve momentos com músicas mais descontraídas, como Everybody Said, Shut De Do, entre outras, nas quais as coreografias traziam um toque de humor à cena. Em alguns momentos, a música dava ao ambiente um clima de adoração e de reflexão, como Walking That Line, e não se ouvia nenhum som na igreja, exceto pela quatro vozes que ecoavam por todo o templo. Num momento, Kevin Schaffer ficou sozinho no palco e fez algumas imitações (entre elas, golfinho, baleia, el niño). A apresentação terminou com uma canção cantada sem qualquer tecnologia -- nem mesmo microfones. A casa ficou em silêncio, enquanto se ouvia Peace Be Still.

O público participou em peso. Gary Moyers costuma anunciar nos concertos: "É hora da participação da platéia!" Ninguém ficava em silêncio. Todos aproveitavam a chance para misturar sua voz com as dos cantores, e o resultado é sempre ótimo. Na igreja onde aconteceu o concerto há a tradição de se cantar sempre a cappella -- durante o louvor, a igreja não usa qualquer instrumento. "Como fica o louvor sem instrumentos? Não fica um pouco vazio?" -- você pode perguntar. "Não", eu ouso responder. Talvez por já ter uma educação musical boa desde a infäncia, o público era muito afinado. Normalmente, a igreja canta os hinos em vozes. Quando o Acappella cantou em Knoxville, no ano passado, tive a singular experiência de ouvir a igreja, quinhentas vozes, separadas em vozes, cantarem em torno de oito hinos. Que tal estar no meio de um coral de quinhentos membros?


E as Auxiliadoras Idôneas?

Na primeira viagem, em 1998, conheci Keena Wilson, esposa de Barry, Michele Schaffer, esposa de Kevin, e Sharon Lancaster, esposa do Keith. Eu conheci Michele só no dia do show. Ela é a responsável pela venda de CDs do Acappella ao final de cada apresentação. No final da apresentação do Acappella em Knoxville, eu conversei bastante com a Keena. E um dos assuntos principais foi: comida. Comentamos sobre tipos de comida, e não pude deixar de falar no churrasco. Quando falei em coração de galinha, Keena foi a única americana que disse gostar, e muito. Ela falou de um prato português, com camarões, e queria saber se eu o conhecia, se eu sabia todos os ingredientes. Tive de confessar não fazer nem idéia do que se tratava!

Conheci Sharon Lancaster depois do ensaio do Acappella, em Paris, TN. Fui apresentado a ela, e conversamos um pouco sobre o Acappella, sobre a igreja, sobre o Brasil. Então, ela se lembrou que a filha dela, Melissa, mantinha contato pela Internet com alguém do Brasil. Quando eu disse que era eu, ela não teve dúvidas, e me convidou para jantar na casa deles. Ela queria saber minha comida preferida, e respondi: "Barbeque", ou algo parecido (é para significar churrasco). E a noite comi barbeque! Estava bom, mas é bem diferente de um churrasco aqui dos pampas!

Passei um dia na casa de Larry Sparks. Já havia conversado com ele através de e-mail. Começamos a falar de quando eu fiz a primeira compra de CDs do Acappella via Internet. Eu tinha o endereço da sede do Acappella, em TN, que recebi do Gary Moyers. E o endereço da sede comercial, onde Larry Sparks trabalha, peguei do envelope que recebi do correio. Quando fui lá, imaginava que fosse uma grande sede comercial, mas, na verdade, era a casa de Larry. Ele tem um escritório nos fundos, de onde faz as vendas. Fiquei meio sem jeito, por ser a casa dele. Já pensou, bater alguém, de outro país, na sua porta, sem avisar? Bem, foi isso mesmo que eu fiz. Fui muito bem recebido (eles ficaram surpresos, é verdade). Conversei como Larry durante toda a manhã. No almoço, sua esposa, Linda, foi buscar um lanche do McDonald's. Conversei muito com Linda durante o almoço, pois sou professor, e ela trabalha para uma escola, como motorista de ônibus, e ela está bem a par das situações que surgem no dia-a-dia de uma escola. Durante a tarde, Larry me mostrou o escritório. Ter a visão de uma prateleira cheia com todos os CDs do Acappella foi algo ímpar! Completei minha coleção, é lógico! Nesta última viagem, não vi Larry nem Linda. Eles estavam passando um tempo no Kansas, para ficar mais tempo perto de sua netinha.

E o Reconhecimento?

Pela graça de Deus, pude acompanhar de perto o Acappella, conhecendo um pouco da vida de cada integrante fora do palco, e sei que o aprendizado foi valioso. O Acappella não está correndo atrás da fama, tanto que não é tão reconhecido em seu próprio país. Quanto a esta questão, Keith Lancaster disse certa vez: "Não busco nenhum reconhecimento humano. O Acappella pode cantar para milhares de pessoas, em um estádio, ou para algumas dezenas, em um igreja, mas se ao menos uma alma for tocada, terá cumprido seu objetivo." E Mo me disse que o Acappella hoje não está tão preocupado com muita produção e muitos efeitos -- agora são apenas quatro vozes, soltas, tranqüilas, cantando para Deus.

Leia também a entrevista com Gary Moyers, que saiu junto com esta matéria na Gospel Music CD, nº 11.